Ailton Carlos Coelho

O circo virtual e a vida como ela é

"A maturidade de um povo não se mede pelo barulho da praça pública, mas pela sobriedade dos fatos e pela firmeza do seu caráter." Ailton Carlos Coelho

  

Quem acompanha o noticiário com o pé no chão percebe sem esforço o abismo existente entre o Brasil dos gabinetes e o Brasil das ruas. Enquanto a cena política nacional e a militância de internet gastam energia com bate-boca, lacração e disputas ideológicas que não resolvem um único problema prático do cidadão, a vida real nas nossas cidades cobra pragmatismo, trabalho duro e resultados. O comerciante da nossa região quer saber se terá paz jurídica para abrir o negócio no feriado. O dono de fábrica faz malabarismo diário para honrar a folha de pagamento e manter os empregos sob o peso dos juros altos. A juventude de Apiúna mostra sua garra no esporte regional, e Santa Catarina recebe diplomatas estrangeiros de olho em parcerias comerciais estratégicas. Ao mesmo tempo, a população cobra prevenção das autoridades para que o próximo período de chuvas não vire mais uma tragédia anunciada. O papel desta coluna é cortar essa fumaça política, ir direto ao ponto e passar a limpo os fatos que realmente afetam o bolso, o futuro e a rotina do cidadão de bem.

Bélgica em Blumenau: a diplomacia que interessa

Na última semana, uma comitiva de diplomatas da Bélgica esteve em Blumenau visitando a Expedição Cervejeira. O encontro, longe de ser apenas um compromisso formal de agenda diplomática, carrega um simbolismo econômico e cultural fortíssimo para todo o Vale do Itajaí. Enquanto a diplomacia de Brasília muitas vezes se perde em alinhamentos ideológicos duvidosos no cenário internacional, Santa Catarina mostra como se faz relações exteriores na prática: atraindo olhares para a nossa capacidade produtiva, nossa identidade cultural e nosso potencial de mercado.

O setor cervejeiro da nossa região há muito tempo deixou de ser apenas lazer para se transformar em uma cadeia produtiva robusta, gerando empregos na agricultura de insumos, na indústria de equipamentos, na gastronomia e no turismo. A visita belga — nação que é referência mundial no setor — reconhece a excelência do que é produzido no Vale Europeu. É esse tipo de projeção internacional que nosso estado precisa incentivar. Em vez de depender de repasses federais ou de discursos vazios, a região ganha relevância mostrando ao mundo a força do seu trabalho e a qualidade dos seus produtos.

Meninas de Apiúna dão lição de dedicação no futsal

O esporte de Apiúna teve um motivo legítimo de orgulho neste final de semana. A equipe feminina de futsal Sub-15 conquistou o bronze na etapa do 5º Circuito Vale Europeu, disputada no município vizinho de Ascurra. A conquista merece destaque não apenas pela medalha no peito, mas pelo significado que o esporte de base carrega na formação de uma comunidade forte e saudável.

Enquanto a juventude atual é constantemente assediada pelas distrações digitais e pelo sedentarismo das telas, ver nossas jovens atletas representando a cidade com garra, disciplina e espírito de equipe renova as esperanças no futuro da nossa gente. O mérito é das jogadoras, da comissão técnica e das famílias que apoiam e incentivam a prática esportiva. A responsabilidade agora passa para os dias 15 e 22 de agosto, quando Apiúna sediará as próximas etapas do circuito. A torcida local tem o dever de lotar o ginásio e apoiar quem leva o nome da nossa cidade com tanta dignidade no Vale Europeu.

PIB de 2% e o sufoco de quem produz

No cenário econômico nacional, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) manteve a estimativa de crescimento do PIB brasileiro em 2% para este ano. A comunicação oficial do governo federal apressa-se em comemorar a projeção, tratando o índice como prova de estabilidade. Na prática, comemorar um PIB de 2% em um país com a riqueza e o potencial do Brasil é assinar um atestado de aceitação da mediocridade por absoluta falta de ambição.

O setor produtivo não cresce mais porque o próprio governo joga contra quem produz. O industrial brasileiro trabalha diariamente no limite. Ele paga caro pela energia, paga caro pela matéria-prima e ainda se vê travado por taxas de juros que inviabilizam qualquer projeto de expansão ou modernização. Para piorar a conta, Brasília mantém uma sanha arrecadatória insaciável, usando o caixa das empresas privadas para bancar o inchaço e a mordomia da máquina pública. Se a indústria ainda segura as pontas em Santa Catarina, isso se deve à raça do empresariado e da turma no chão de fábrica, não a facilitadores do poder público. Falta ao governo federal o essencial: cortar na própria carne em vez de sangrar quem produz.

Comércio nos feriados: prevaleceu o bom senso

A nova portaria que regulamenta o trabalho no comércio em dias de feriado trouxe o mínimo que o setor produtivo exige para operar com tranquilidade: clareza. Ao definir os segmentos autorizados a funcionar sem depender da morosidade de sindicatos ou de negociações coletivas que se arrastavam por meses sem desfecho, a medida devolveu a previsibilidade às lojas e ao setor de serviços.

Garantir o direito de trabalhar não deveria ser pauta de controvérsia em um país sério. O comerciante que deseja manter as portas abertas para vender e atender a população deve ter esse direito resguardado, desde que cumpra a legislação e pague seus colaboradores adequadamente. O comércio é o motor que faz girar a renda do município e mantém os empregos no centro da cidade. Tratar o funcionamento de uma loja no feriado sob a ótica da disputa ideológica sempre foi um atraso lamentável. A simplificação das regras beneficia quem produz, gera renda extra para o trabalhador e respeita o consumidor.

Alesc e a organização do voluntariado em resgates

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina acertou ao pautar o projeto de lei que prevê a criação de um cadastro estadual de pessoas capacitadas para atuar em operações de resgate e emergências. A proposta visa mapear profissionais civis e voluntários com treinamento comprovado em socorrismo e defesa civil, criando um banco de dados ágil para ser acionado em momentos de calamidade pública.

Nosso estado carrega um histórico doloroso com enchentes e deslizamentos de terra que testam com frequência a estrutura das cidades. Em contrapartida, o povo catarinense tem uma cultura de solidariedade e auxílio mútuo que serve de exemplo para todo o Brasil. O problema é que, no momento crítico do caos, a boa vontade sem organização prévia pode gerar confusão no local do socorro. Ter uma lista oficial com voluntários qualificados e prontos para atuar em sintonia com o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil é gestão preventiva inteligente. Custa muito pouco aos cofres públicos e pode salvar vidas no momento da crise. É esse tipo de pauta útil que a política catarinense precisa entregar com mais frequência.

Menos barulho, mais resultado

A sequência dos fatos desta semana deixa uma lição cristalina para quem acompanha a política com responsabilidade: enquanto o barulho das redes sociais tenta distrair a população com polêmicas vazias e moralismo de ocasião, o desenvolvimento real de Apiúna, do Vale do Itajaí e de Santa Catarina continua dependendo do trabalho, da ordem e da liberdade para produzir.

O leitor do Jornal Cabeço Negro busca a verdade dos fatos, e não o sensacionalismo barato do ambiente virtual. O futuro da nossa região não virá de discussões ideológicas na internet, mas sim da nossa capacidade coletiva de cobrar seriedade e coerência das autoridades, defender quem acorda cedo para gerar renda e valorizar quem realmente constrói o nosso país na prática.

A coluna Passando a Limpo é publicada semanalmente e expressa a opinião de seu autor.