OPINIÃO

A inversão da narrativa e a impunidade dos verdadeiros algozes

Entre acusações levianas contra a antiga gestão e o silêncio complacente com os desvios milionários da pandemia, o Brasil assiste à erosão da lógica e da justiça.

  

Quem acompanha o debate político brasileiro, alimentando-se não só de um canal de notícias, percebe sem muito esforço como as palavras perderam completamente o sentido original no país. Expressões de peso gravíssimo foram transformadas em meros slogans de palanque para queimar a reputação de adversários. O rótulo violento de "genocida", colado no ex-presidente Jair Bolsonaro dia e noite por militantes e por boa parte da imprensa tradicional, virou o exemplo acabado dessa estratégia desonesta de desconstrução política e assassinato de reputação.

Basta olhar os fatos friamente, sem o filtro do partidarismo cego que ofusca a razão. No ápice da crise sanitária global, o governo federal colocou em prática a maior distribuição de renda emergencial que a América Latina já viu em sua história recente. O Auxílio Emergencial socorreu na ponta mais de 60 milhões de trabalhadores vulneráveis que tiveram o ganho diário cortado do dia para a noite pelas canetadas estaduais. Do caixa da União saíram bilhões e bilhões de reais para comprar mais de meio bilhão de doses de vacinas, repassadas diretamente para os governos estaduais aplicarem em suas populações. O discurso que saía do Planalto batia na tecla do alerta urgente sobre a economia, afinal a miséria, a fome e o desemprego matam com a mesma rapidez e gravidade que qualquer vírus.

Bolsonaro não trancou portas de comércio, não tirou o ganha-pão de autônomos na marra e nem colocou a força policial na rua para prender cidadão comum caminhando em praia ou praça pública. Essa sanha autoritária veio de governadores e prefeitos que se respaldaram no Judiciário para impor lockdowns brutais e irresponsáveis. O prejuízo gigante dessa canetada arbitrária, que destruiu pequenos negócios, quebrou empresas e faliu famílias inteiras, quem paga até hoje é a população mais pobre e trabalhadora deste país.

Só que enquanto a gritaria do "genocida" ocupava espaço nas capas de jornais e nas bancadas de TV para desgastar a imagem de um homem, a roubalheira corria solta nos bastidores sob o pretexto da urgência médica. Onde foram parar as autoridades e os empresários que assinaram compras astronômicas de equipamentos hospitalares que nunca chegaram nas UTIs? A lambança do Consórcio Nordeste fala por si só: quase cinquenta milhões de reais foram pagos à vista e adiantados para uma empresa de canabidiol (produtos de maconha), sem nenhuma tradição na área médica, fornecer respiradores que jamais saíram do papel. Na outra ponta do país, o estado de Santa Catarina viveu um absurdo idêntico, com mala preta, pagamento adiantado de 33 milhões de reais e compra de respiradores fantasma que nunca salvaram uma única vida.

O resultado dessa conta é de dar nojo a qualquer cidadão de bem. Quem esteve no centro dessas negociatas obscuras durante o momento mais dramático da nação não só está solto, como hoje transita nos corredores do poder com pompa, prestígio e circunstância. Têm articuladores e gestores diretos desses contratos chefiando ministérios estratégicos em Brasília, gente disputando eleição no tapete vermelho da política e figura carimbada ocupando cadeira de topo até no Supremo Tribunal Federal. A balança da justiça no Brasil opera com dois pesos e duas medidas: perdoa a farra escancarada com a verba pública da saúde, mas condena sem dó quem defendeu o direito do trabalhador levar comida para dentro de casa.

O Jornal Cabeço Negro não se rende a essa reescrita velhaca da história. A liberdade de expressão e de pensamento exige que os fatos sejam ditos com todas as letras, doa a quem doer. A verdadeira justiça só existirá neste país no dia em que os reais responsáveis pelo desvio de dinheiro público e pelos abusos contra o povo pagarem exatamente o que devem perante a lei.