DIA DA MULHER: Os desafios das mulheres na política foram tema de encontro
“Primeiro, a gente precisa se convencer de que é capaz e que tem potencial”, destacou a presidente da Fecam, Sisi Blind, durante o encontro

Frequentada, na maior parte do tempo, por homens vestidos de terno e gravata vindos de todos os cantos do Estado, a sede da Federação Catarinense de Municípios (Fecam), em Florianópolis, não parecia a mesma, no dia 1° de março. Na sala de reuniões, havia apenas mulheres. A pauta essencialmente técnica deu lugar a um encontro produtivo,masdiferente:emmeio a sorrisos, lágrimas, olhos nos olhos e cumplicidade, prefeitas, vice-prefeitas, secretárias de municípios e funcionárias da Fecam trocaram experiências e debateram os principais desafios das mulheres que ocupam cargos de poder em Santa Catarina. “Em 1932, as mulheres conquistaram o direito de votar. É muito recente! Nãosepassaramnem100anos desde então e cá estamos, administrando as nossas cidades, tomando decisões importantes. Somos vencedoras”, comemorou a nova presidente da Fecam,SisiBlind,queéprefeita de São Cristóvão do Sul.
Empossada em fevereiro, Sisi avisou, no discurso, na época, que faria um encontro só para prefeitas e vice-prefeitas, secretárias e executivas mulheres. “Usei um tom de brincadeira e a reação dos homens foi no ato. Vários comentaram que seria um clube da Luluzinha (risos). Aí eu respondi: 'vocês estão há 36 anos à frente da Fecam e agora é a nossa vez'”, contou, bem-humorada, a presidente da entidade.
A ideia de reunir apenas mulheres foi criar um espaço para que as gestoras municipais conversassem sobre os desafios, as alegrias e as dificuldades que enfrentam no âmbito político. “A gente tem feito a diferença onde a gente está, sendo mulher. Não precisamosseriguaisaoshomens. Temos a nossa sensibilidade, o nosso jogo de cintura, essa coisa de ser mulher, mesmo. Não estou menosprezando os homens, pelo contrário. Não seiseépiorouseémelhor,mas o nosso jeito de administrar é diferente. Assim como nós somos diferentes também entre nós”, explicou a presidente da Fecam.
Dos 295 municípios catarinenses, 21 são administrados por prefeitas. O Estado tem 22 mulheres que ocupam o cargo de vice-prefeitas. Para Sisi, o baixo percentual de mulheres no poder é reflexo da recente emancipação política feminina. A intenção de encontros como este é, justamente, encorajar mais mulheres para que assumam postos de liderança nas suas comunidades, nos seus municípios, no seu Estado e no país. “Ou a genteseimpõe,ouagentenão aparece, em meio a este mundo tão masculino”, destaca Sisi.
Entre as participantes do evento, a maioria teve uma educação conservadora. Nascidas em cidades do interior, buscaram o seu lugar frente aos seus grupos. Foram vivências diferentes, com experiências parecidas e jeitos diferentes de lidar com elas. “Na minha cidade, cheguei a ouvir gente dizendo que não votariam em quem usa calcinha”, comentou uma das prefeitas que participou do evento. “Durante as campanhas eleitorais, eu ouvi, muitas vezes, coisas de baixo calão em relação à mulher. Coisas que não diriam a um homem pelo simples fato de ser um homem. Ainda tem gente que não tolera mulher pleiteando cargos importantes”, comentou Sisi.
Na opinião da prefeita de Seara, Laci Grigolo, vencer o machismo é questão de tempo.“Devem até ter dito alguma coisa do tipo para mim, mas eu não dou ouvidos. Sou muito prática, resolvo as coisas e toco avidaemfrente.Tenho50anos de idade, convivi de perto com esse mundo de possibilidades para os homens e de restrições à mulher. Mas não levo para o pessoal. Eu tenho um lho homem e uma lha mulher e sempre tentei criar os dois de forma bem liberal, mas, olhando para trás, vejo que eu também eduquei de maneira diferente o lho e a lha. Não foi intencional. E acho que assim ainda é com as mulheres na política. Ainda tem machismo, mas as coisas vão mudando”.
Para essas mulheres que se sentem chamadas a assumir um cargo político ou a liderança em algum setor ainda dominado pelos homens, a prefeita de São Cristóvão do
Sul tem dois conselhos: “Primeiro, a mulher precisa se autoconvencer de que é capaz e que tem potencial, basta desenvolver. Segundo, é preciso estudar muito. Se preocupar comasquestõesespecí casda função que quer exercer, seja ela prefeita, vereadora, presidente de associação. Porque a nós, mulheres, é cobrado mais.
Quando assumimos uma função em que o mundo masculino é predominante, pode ter certeza que será exigido mais da gente”, concluiu.
Com informações da Agência Adjori de Jornalismo. Texto revisado pela redação.






