Coligar é preciso, coesão não

Em outubro, o Brasil irá às urnas. Atrás destes votos estão armadas as coligações, a maior polêmica do sistema eleitoral brasileiro, desde a redemocratização, em 1985. Em Santa Catarina há coligações com até 12 siglas, que para tentar ganhar as eleições pagam um preço alto: a perda da identidade partidária. É assim que rivais políticos históricos dividem, sem constrangimento, o palanque e surpreendem os eleitores que ainda acreditam no purismo ideológico dos governos.
As primeiras coligações no Brasil se organizaram no pósguerra, em 1945, foram interrompidas pela ditadura de 1964 e refazeram em Aliança Democrática e Partido Democrático Social em 1985, dando ao país o caráter singular da incoerência.
Para o cientista político Jairo Marconi Nicolau é a falta de regras a mãe das atuais coligações: "Não existe um sistema matemático para distribuir as cadeiras entre os partidos coligados. Isso acontece devido à inexistência de regras que estabeleçam um cálculo prévio da contribuição de cada partido para a votação total da coligação. As cadeiras obtidas por um partido coligado dependem do posicionamento de seus candidatos na lista, e não do percentual de votos deste sobre a votação total da coligação", avalia o especialista.
Nessa situação, um partido que teve baixa contribuição para o quociente eleitoral pode ter um candidato que ficou bem posicionado na lista, enquanto um partido que obteve significativa contribuição para a coligação pode ter candidatos com desempenho individual insatisfatório para conseguir se eleger. Então, quanto mais siglas, mais chances.
E se as coligações diferem nos estados é pelo chamado Federalismo Partidário, defende Nicolau no seu livro "Multipartidarismo e Democracia". Na prática, significa que um partido pode ser fraco no Nordeste, mas muito influente no Sul. Onde há fraqueza, o partido se coliga com uma sigla mais forte, que por sua vez exige parceria num Estado que tem menos representatividade.
Para Waldir Rampinelli, professor de História da UFSC, a raiz da incoerência é a fragilidade de se acreditar em direita e esquerda partidárias. A ideologia de direita e esquerda foi criada na Assembleia Constituinte francesa, após a tomada da Bastilha em 1789, tendo os jacobinos com ideias radicais sentados à esquerda e os girondinos, à direita, adeptos do conservadorismo; e cai com o Muro de Berlim, a complexidade da economia, e as transformações do século XX, explica o professor. Daí surgem os partidos de centro. Mesmo quem não quer cria alianças para não ser mais um no mar de siglas.
Com informações da Agência Adjori. Texto revisado pela redação.





