Produzir e distribuir a riqueza
Desde os tempos mais remotos, o grande dilema da humanidade tem sido o de saber produzir e, ao mesmo tempo, distribuir a riqueza. Esse cisma tornou-se maior desde o alvorecer da Revolução Industrial, quando os patrões submetiam seus empregados a longas jornadas de trabalho (muitas vezes de 14 horas ou mais), a condições de trabalho insalubres e a uma remuneração vil.
Na Inglaterra, começaram a surgir os movimentos trabalhistas, reclamando a redução da jornada laboral e um salário mínimo, anseios sintetizados no canto que se ouvia nas ruas de Manchester: “eight hours to work; eight hours to play; eight hours to sleep; eight shillings at day”.
A situação lastimável dos trabalhadores, que incluia menores, mulheres e idosos (tão bem detalhada por Charles Dickens em Oliver Twist), gerou as teorias comunistas e de Karl Marx e Friedrich Engels, e a contrapartida liberal de David Ricardo. Antagonistas ao extremo, um pregava estatização, outro a liberação dos meios de produção.
As teses de “O Capital”, de Marx, transformadas na oratória imbatível de Lenin, produziram a revolução bolchevista de 1917, disseminando na Europa do Leste e na Ásia (China, Coréia e Vietnan do Norte) a chamada “ditadura do proletariado”. As de Ricardo embasaram os modelos ocidentais de livre iniciativa.
O resultado de um século de confrontação entre os dois sistemas (que quase nos levou a uma guerra nuclear de consequências inimagináveis) foi sintetizado magnificamente pelo ex-Presidente da Tchecoslováquia, Vaclav Havel: “o comunismo buscou distribuir a riqueza, mas não soube produzi-la! O capitalismo sabe produzi-la, mas não sabe distribuí-la”.
No meio do fogo cruzado das ideologias conflitantes, surgiu a Encíclica “Rerum Novaram”, na minha opinião, o mais importante documento político, econômico e social que a Igreja Católica produziu em seus dois mil anos!
No preâmbulo da famosa Encíclica de 1891, o notável papa Leão XIII faz uma análise do quadro que o levou a propor a intervenção do Estado nas relações entre o capital e o trabalho: “os portentosos progressos das artes e os novos métodos da indústria; as novas condições entre patrões e operários; a acumulação da riqueza em poucas mãos e a pobreza largamente disseminada; o sentimento das próprias forças que se tornou mais vivo nas classes trabalhadores, e a união mais íntima entre eles; esse conjunto de coisas, com o acréscimo da degradação dos costumes, contribuíram para a explosão do conflito.(...) esse conflito é de tal e tamanha gravidade que deixa os ânimos em suspense e em inquieta espectativa...”
À “Rerum Novarum” seguiram-se – no século passado - outras quatro importantes Encíclicas, que a atualizaram e completaram-lhe o texto, sem modificar nenhum dos seus conceitos originais. Refiro-me à “Quadragesimo Anno”, do Papa Pio XI; à “Mater et Magistra”, de João XXIII; à Populorum Progressio”, de Paulo VI; e à “Centesimus Annus”, de João Paulo II.
Dessa doutrina social da Igreja Católica, surgiram dois importantes modelos conciliatórios entre comunismo e capitalismo: a economia social de mercado, adotada pela Alemanha, pelos países nórdicos e por outras nações europeias; e o cooperativismo.
Sem dúvida nenhuma, o sistema cooperativo é a forma mais perfeita que o homem inventou para produzir a riqueza e distribuí-la. Quem for às assembleias das nossas cooperativas agrícolas vai ter o prazer de ver o crescimento econômico conjugado com distribuição de renda e justiça social. Exatamente como queria Leão XIII.






