Por que parou? Parou por que
Sete órgãos públicos do Estado estão ou ameaçam entrar em greve. Isso por si só já seria um grande problema. Mas um problema ainda maior, a meu ver, é que pouca gente liga para isso. Posso apostar que a maioria das pessoas que leem os jornais(ounemissofazem)nãosedão ao trabalho de avaliar como e porque chegamos a este quadro. Estamos em um Estado diferenciado social, econômica e politicamente mas, ainda assim, é muito pequeno o envolvimentodasociedade,daimprensaede cada um de nós nos assuntos da gestão pública. Após quase dez anos dedicados aos assuntos públicos de Santa Catarina, essa é para mim a parte mais angustiante do trabalho. Porque acredito, honestamente, que poderíamos fazer muito mais.
A situação é de conhecimento geral: a arrecadação, que sustenta os serviçospúblicoseoscaixasdemuitos municípios está em queda vertiginosa há mais de dois anos. Ao mesmo tempo, crescem os gastos com a folha de pagamento dos servidores. O Governo faz das tripas coração para não aumentar impostos, enquanto quase todos os outros estados aumentaram. E Santa Catarina ainda se mantém com a menor taxa de desemprego do Brasil, embora com cada vez mais catarinenses desempregados.
Não há dinheiro. E também não há compreensão. Gerenciar essa absoluta falta de recursos é tão exaustivo que muitas vezes chego a concordar com os grevistas. Pensando bem, seria muito mais fácil conceder tudo o que pedem e deixar a conta para as próximas gestões. Pensando bem poderíamos atender todos os pleitos e conceder todos os aumentos salariais – mesmo sem capacidade financeira de pagá-los. Assim nos livraríamos dessa situação chata, de participar de audiências cansativas em que somos chamados de abusadores dos recursos públicos.
Vamos conceder novos direitos a todos! E não vamos parar por aí: também iremos aumentar o ICMS da energia, do combustível, de tudo o que os outros estados aumentaram. Assim cobriremos essas novas concessões salariais, pelo menos por agora. Depois... Ah, depois não será problema nosso. Não é assim que pensam os que exigem aumento em tempo de crise?
O problema é que, pensando bem mesmo, estaríamos penalizando mui- TENDÊNCIA PARA OS PRÓXIMOS DIAS tos outros catarinenses, aquela maio- Segunda-feira 05/09 ria silenciosa, os que não são servidores públicos, que estão perdendo o emprego. Que não estão recebendo reposição salarial ou até tiveram os salários reduzidos. Que não fazem barulho, não entram em greve. Estão batalhandoparaganharavidaepagar os impostos que sustentam os serviços públicos. Aqueles serviços, que são mantidos pela arrecadação. Aquela arrecadação, que vai quase metade para pagar a folha dos servidores. Aqueles mesmos que cruzam os braçosquandonãorecebemaumentos.
Já escrevi em outra oportunidade sobre escolhas. Sobre ser responsável ou populista. A primeira opção é sempre muito mais difícil. Mas certamente não seria tanto se a responsabilidade fosse dividida. Se mais pessoas se interessassem por compreender as possibilidades e limitações legais e financeiras do Estado. Se entendessem as consequências de concessões não planejadas, os próprios cidadãos coibiriam as greves descabidas. Diz o ditado: “nenhuma corrente é mais forte do que seu elo mais fraco”. Do jeito que está, a nossa não demorará muito a arrebentar.






