SEE JORNAISQuinta-feira, 15 de outubro de 2026Leia também: Jornal Parole
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ARTIGO

O olho da rua

Ao parar no sinal de trânsito vejo o homem com o cartaz na mão: “Desempregado, mas na luta. Paçoquinha a R$ 1”. No impulso compro algumas para ajudar e sigo meu caminho pensando na situação daquele homem, cuja idade deve emparelhar com a minha. Ele é só mais uma das tantas vítimas da crise – cuja pior face é, com certeza, o desemprego.

Outra história me vem à mente: aquela contada recentemente na imprensa, do homem de 58 anos que passa os dias no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ele é um catarinense, de Itajaí, que foi executivo de grandes empresas na cidade “maravilhosa”. Desempregado, passou a bater ponto no terminal, utilizando durante o dia a internet, o banheiro e a água do local. À noite, sem opção, ia dormir na rua. A exposição na mídia acabou lhe rendendo abri goe trabalho.

Chegando ao meu destino, abro um jornal de grande circulação e leio que o número de moradores de rua na cidade do Rio de Janeiro cresceu 78% no início deste ano. No último balanço anual, em 2016, já eram quase 15 mil. Entre os personagens da reportagem temos um caminhoneiro da minha idade e um camelô coma esposa e um bebê de apenas 40 dias. O primeiro perdeu o emprego, gastou o parco dinheiro da rescisão para pagar um quartinho enquanto procurava trabalho. O dinheiro acabou e o emprego não apareceu. Já o camelô é uma vítima não só do desemprego, mas das drogas. Perdeu tudo, mas agora quer se recuperar e cuidar da filha. Ele vende guarda-chuvas e a esposa distribui folhetos.

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Um dos grupos humanitários que distribui comida aos desabrigados conta que há cinco anos eram entregues 80 refeições por noite. Hoje, 300 não dão conta. São grupos como esse que amenizam a triste situação experimentada por esses cidadãos. Muitas vezes, a refeição distribuída por eles é a única do dia. O que TENDÊNCIA PARA OS PRÓXIMOS DIAS osmoveéaempatia:se colocar n olugar do outro.O trabalho dele sme comove.

Mas aí leio a parte mais chocante. Incomodados pelo contingente de sem teto, muitos comerciantes colocaram tapumes para impedir o acesso às marquises e

Tempo nublado, com instalaram chuveirinhos para molhar algumas aberturas de quem tentar se abrigar. As medidas foram aplaudidas por boa parte dos moradores dos bairros.

No caso do Rio de Janeiro, existem pouco mais de duas mil vagas de acolhimento, quase todas ocupadas. Então qual a opção dessas pessoas? Claro que ninguém se sente bem em sair do seu prédio e top ar com pessoas dormindo em frente,ou encontrá-las ao chegar em seu estabelecimento comercial.Masexpulsá-lasdeforma agressiva não é a solução. Ali estão seres humanos como nós, com a diferença de que não tiveram as mesmas oportunidades. Muitos têm carteira assinada, que fazem questão de mostrar. Outros, não tiveram nem mesmo a chance da alfabetização. Eles são fruto das nossas escolhas como sociedade. E agora, com a severidade da crise, não resta nem a famosa saída de colocar a culpa no governo. Os governos abraçaram responsabilidades demais e, claro, não deram conta. Não adianta fechar os olhos, colocar tapumes, instalar chuveiros. O problema existe e nos cabe ajudar, como for possível. Nem que seja com uma palavra gentil, um olhar benevolente, ou comprando uma paçoca.

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