O Humor e a metralhadora
O mundo assistiu, atônito, às cenas de violência e crueldade que abalaram a França, na semana passada.
Doze pessoas, dentre os quais cartunistas e jornalistas consagrados, foram barbaramente assassinadas, à luz do dia, na redação do semanário Charlie Hebdo.
Conhecido por sua ousada mordacidade, que não perdoou nem mesmo Jesus Cristo e São Pedro,o Charlie foi atacado, pela segunda vez, por sua irreverente crítica ao islamismo e ao Profeta Maomé.
Por ultrapassar limites éticos, era de se esperar que alguém, uma igreja ou um país muçulmano, movesse ações, abrissem processos, para com base na lei de imprensa e do direito universal, buscar reparações dos responsáveis pela editoria do semanário.
A democracia deplora a ofensa jornalística, não ampara a injúria, a calúnia e a difamação.Tem mecanismos legais, que vão desde a obrigação de publicar o desmentido, até a prisão dos responsáveis, além de pesadas penas pecuniárias.
Tanto católicos como islamitas têm toda a razão de se chocar e indignarse com as charges que o Charlie publicou sobre Jesus e Maomé. Mas, ninguém tem o direito de transformar a sua indignação fuzilando os autores dos desenhos escandalosos.
Como explicar tanto ódio? Tanta ira?
Haveria naquelas balas uma herança atávica dos árabes massacrados, em Jerusalém,pelos templários das Cruzadas?
Teria relação com o modo como o ocidente submeteu o norte da África e regiões do Oriente Médio, explorando as riquezas minerais, como gás e petróleo, que lá são abundantes?
Expressaria uma velhíssima cultura, que se forjou na Mesopotâmia, a da violenta reparação de danos causados?
Essa cultura consolidou-se na lei de talião, sistemada, com outras normas, no Código editado pelo Rei Hamurabi, por volta de 1820 antes de Cristo.
Por que levou esse nome de lei de talião?
Não se trata de homenagem a algum jurista ou monarca. Esse nome chegou até nós oriundo das expressões latinas “lex” (lei) e “talis” (idêntico), donde se origina a palavra”portuguesa “tal”, que quer dizer iguais.
Essa lei, que tem origem nos costumes do povo assírio, dava direito ao ofendido de agir contra o ofensor com ofensa igual. Ficou conhecida por “olho por olho, dente por dente”. Assim, se alguém cegava alguém, merecia ser cegado. Se alguém matava alguém, merecia ser morto.
Se estivesse vivo, vendo a lei de talião sendo usada para massacrar os jornalistas do Charlie Hebdo, Mahatma Ghandi entraria em jejum irreversível, convencido de que a humanidade não aprendera as lições da desobediência civil e da nãoviolência.
É dele a célebre frase: “se olho por olho, dente por dente se mantivesse até os tempos atuais, a humanidade estaria cega e desdentada!”
Agindo em nome de Maomé, os terroristas que, feito os sicários da Assíria, acabam de abalar a humanidade, são a antítese do verdadeiro islamismo, cujo sentido autêntico é a submissão ao espírito de paz e tolerância.






