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Sua Vez

"Dez anos sem Celso Furtado”

Fomos no mesmo carro entregar nossos cargos ao presidente José Sarney. Celso Furtado era ministro da Cultura, e eu, da Ciência e Tecnologia. Na véspera, o presidente tinha feito um discurso veemente contra os rumos que o PMDB, sob o comando de Ulysses Guimarães, vinha dando a Assembleia Nacional Constituinte.

Em solidariedade ao partido e ao nosso presidente Ulysses, decidimos deixar os ministérios que até então dirigíamos.

Minha admiração pelo paraibano Celso Furtado começou nos tempos universitários, quando chegou às minhas mãos sua obra clássica “Formação Econômica do Brasil". Naquela época -- estávamos no início de 1964 -- chegavam até nós os ventos mudancistas da CEPAL, propondo uma virada de industrialização e substituição de importações, como base do desenvolvimento.

Junto com o ex-ministro da Economia argentina, Raul Prebisch, Celso fora uma das vozes mais ouvidas a assinalar a nossa condição de pais periférico e subdesenvolvido, uma das suas lições que jamais esqueci, está nessa frase lapidar: "O desenvolvimento, na realidade, diz respeito às metas da vida. Desenvolver para criar um mundo melhor, que responda às expectativas do homem e amplie os horizontes. Só há desenvolvimento quando o homem se desenvolve”. Encontramos-nos na luta do MDB para derrubar o regime autoritário de 1964, e restabelecer a democracia. Ele deu preciosa contribuição ao texto do documento "Esperança e Mudança”, que foi a bíblia ideológica que nos levou aos memoráveis tempos das diretas-já e á frustrada eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.

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Nos tempos de ministério, tivemos longa convivência, discutindo, normalmente na casa de Ulysses e Mora, as questões em curso na Assembleia Nacional Constituinte.

Foi com ele que consegui, para o Prefeito Wittich Freitag, recursos à construção do modelar Arquivo Histórico de Joinville, inaugurado com sua presença, numa tarde inesquecível.

Tido como economista, Celso Furtado, na verdade, era um pensador universal. Sabia como poucos, as razões que impediam e ainda impedem o Brasil de ser uma nação desenvolvida. Costumava dizer: “só um economista imagina que o problema é estritamente econômico". Poucos brasileiros tiveram tantos lauréis acadêmicos como professor em Sorbonne, Cambridge, Yale, Colúmbia e outras importantes universidades europeias e norte-americanas. Não sei de outro compatriota que tenha sido membro do Centro de Altos Estudos Científicos da França.

Mas, embora tenha vivido a maior parte de sua vida no exterior (Chile, Europa, Estados Unidos), era movido por um amor imenso ao Brasil: "Os três maiores gênios brasileiros, em minha opinião, Aleijadinho, Machado de Assis e Villa Lobos, só foram porque foram profundamente brasileiros".

No próximo dia 20 de Novembro, transcorrerão dez anos de sua morte. Uma morte que reduziu o tamanho do pensamento científico e cultural do nosso país.

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