A palavra e a imagem

Desaparecerão os livros? Os jornais deixarão de ser impressos? Não haverá mais revistas?
Esta é a pergunta mais recorrente no seio da intelectualidade: será que nos informaremos sobretudo no meio eletrônico, nos computadores, nos Iphones, nos Ipads?
Qual é o tempo que resta para recebermos os jornais na nossa casa? Ou para aquele prazer de percorrer as estantes das livrarias?
Em magnífica entrevista concedida ao jornal madrilhenho “El Pais”. Mario Vargas Llosa alerta que “se a palavra é substituída pela imagem, a imaginação corre perigo”.
Tem plena razão o peruano, Prêmio Nobel de literatura! Um dos livros que me foram mais reveladores da personalidade humana foi “Zorba o Grego”, de Nikos Kazantzakis. Quando chegou aos cinemas o filme com o mesmo nome, baseado no livro, procurei, ansiosamente, comprar o meu bilhete.
O filme é extraordinário! Dirigido pelo famoso cineasta grego, Michael Cacoyannis, tinha no seu elenco Anthony Quinn, no papel de Zorba; Alan Bates, no papel do escritor britânico Basil; e Irene Pappás, no papel da formosa e desejada viúva aldeã. Além de um magnífico roteiro fotográfico na inesquecível paisagem de Creta e da pequenina aldeia Stavros, sobra, no filme, a trilha musical de MikisTheodorákis e o desempenho de Lila Kédrova, no papel de Madame Hortense, a ex-meretriz proprietária do “Hotel Ritz”.
Mesmo assim, para mim, o filme foi decepcionante, pois, ao ler o livro formei as minhas imagens. Imaginei uma Ilha, um Zorba, um Brasil, uma viúva e uma Madame completamente diferentes daqueles que foram construído por Cacoyannis, o diretor do filme.
Depois disso, tenho me negado a ver filmes baseados em livros que já tenha lido.
Vargas Llosa ficou famoso em todo o mundo com o romance “Conversa na Catedral”. Aqui no Brasil, escreveu “A guerra do fim do mundo”, acrescendo personagens de ficção à Guerra de Canudos, que Euclides da Cunha imortalizou com “Os Sertões”.
Em sempre exalto o livro do peruano, que consegue escrever com sotaque baiano.
Na entrevista a que me referi acima, ele afirma, com plena razão: “se o mundo continuar o processo no qual a palavra escrita está sendo substituída pela imagem e pelo audiovisual, corremos o risco de que desapareça a liberdade, a capacidade de refletir e imaginar, além de outras instituições como a democracia”. Pois, “a palavra lida, e a linguagem comunicada de maneira impressa, tem um efeito no cérebro que completa e complementa o que é lido”. E prossegue: “Na leitura, há um esforço criativo e intelectual que quase é eliminado com o visual”.
Por isso, quando eu leio - como estou lendo agora o romance português “Vera Cruz”, que resgata a verdade sobre o caráter e a competência náutica do Almirante Pedro Álvares Cabral – eu construo os meus cenários; imagino como são os personagens; desenho na cabeça as minhas paisagens, vejo do meu modo as ruas, as casas, as cidades, os rios, os lagos, as florestas, as montanhas, o mar...
Concordo plenamente com Vargas Llosa, quando ele diz: “a leitura não só entretém, mas produz um efeito mais profundo, cria cidadãos mais responsáveis e críticos e contribui para um mundo melhor”.





