A culpa é nossa
Não fui eu. A culpa não é minha. Eles que começaram. Quando cheguei já estava assim. Não tenho nada a ver com isso. Essas expressões que ouvimos – e usamos, vamos admitir – desde pequenos mostram muito da nossa personalidade como brasileiros e da característica de pouca ou nenhuma autor responsabilização pelos problemas que nos afetam. Temos sempre uma “entidade” a culpar. Tem frase mais célebre no Brasil que “a culpa é do governo”?
Claro que tem muito problema causado por quem tem o poder de mudar as coisas e não o faz; por quem tem oportunidade de trabalhar pela coletividade e só o faz em benefício próprio. Mas nós, que colocamos essas pessoas nessas posições, também temos cul pano cartório sim. Desde o momento em que escondemos um pequeno delito ou estimulamos nosso filho a fazê-lo estamos fugindo da responsabilidade. Foi falta, mas o juiz não viu. A moça do caixa deu o troco a mais, mas não notou. É proibido estacionar, mas são só cinco minutinhos. Não faz mal a ninguém quando ninguém está vendo. A não ser quando o delito nos atinge.
Aí é feio, é censurável, ficamos de dedo em riste prontos para apontar os culpados. E eles sempre existem. Se tem alagamento, a culpa é do prefeito, não do morador que jogou lixo na rua. Se a arrecadação é insuficiente, a culpa é dos impostos, não do sonegador. Se meu filho briga na escola, a culpa é do colega – ou dos pais dele, que não sabem educar. Isso tudo é transferir responsabilidades.
Pouco vemos quem bata no peito e diga: a culpa também é minha, eu assumo e vou trabalhar para transformar a situação. Provavelmente viveríamos num país melhor se fôssemos mais assim. Porque, ao se tornar culturalmente aceito, esse comportamento do “não é bem assim, podemos dar um jeitinho” acabou ganhando dimensões bem maiores. Hoje somos um dos campeões mundiais em corrupção. Fomos aceitando um favorecimento aqui, uma compra direcionada ali, jogando a culpa ora no político, ora no empresário, ora no modelo de estado. A Lava- Jato está aí para mostrar o sistema que acabo use criando.
Ainda assim, relutamos em assumir nossa parcela de responsabilidade. Experimente iniciar uma discussão sobre algum problema estrutural.A tendência natural é mais apontar os causadores do que unir esforços para a solução. O executivo joga para o legislativo, que joga para o judiciário. O efetivo aponta para o comissionado. O pai culpa o professor. O católico para o evangélico. O gerente culpa o diretor. O vice não sabia o que fazia o governador. E não se chega a solução alguma.
Euevocê,que está aqui lendo esse texto, temos participação em tudo o que afeta a coletividade. Se votamos em quem rouba, mas faz, somos coniventes com o roubo. Se votamos sem informação sobre o candidato, seremos corresponsáveis por seus erros de gestão. Se não participamos do conselho comunitário, não temos como reclamar da insegurança no bairro. Compramos um animal de raça, mas não queremos vervira-latasnarua.Reclamamos da poluição? A culpa é nossa, se não reciclamos nosso próprio lixo. Precisamos assumir que somos parte do todo. Essa transferência de responsabilidade generaliza-da tem transformado muitas coisas para pior. Só o fato de não agirmos para transformar uma situação errada já nos torna responsáveis em parte por ela. Assumir proble masé um enorme acerto. E o primeiro passo para resolvê-los.






